Você Não É Seu Cargo: a confusão que custa caro aos escritórios jurídicos

PESSOAS & PAPÉIS

Segunda-feira de reflexão: Há quanto tempo você não separa a pessoa do papel?


Há alguns anos, uma sócia de um escritório de médio porte no Ceará me chamou para uma consultoria urgente. Ela estava angustiada — não com processos, não com clientes, mas com pessoas.

“Paulo, preciso mudar meu sócio de função. Ele é um excelente advogado trabalhista, mas um gestor desastroso. O problema é que ele é esse cargo há 15 anos. Se eu o remover, vou destruir a pessoa.”

Essa frase resume a doença que mais vejo em escritórios jurídicos no Brasil. Advogados confundem sua identidade profunda com o papel que ocupam agora.

O Paradoxo do Advogado-Cargo

Você conhece o tipo: aquele sócio que se define como “o especialista em contratos”; a coordenadora que é “a gestora de pessoas”; o associado que aprendeu a se ver como “o responsável pelos prazos”.

E tudo bem até o momento em que:

  • Uma IA começa a fazer contratos melhor que ele
  • A consultoria diz que alguém mais alinhado precisaria coordenar
  • Ele deveria liderar algo que nunca fez

Nesse instante, a crise é existencial, não profissional. Porque ele confundiu quem ele é com o que ele faz.

Escritórios com essa confusão têm:

  • Dificuldade em renovar papéis (porque mexer no cargo é mexer na pessoa)
  • Sofrimento desnecessário nas reorganizações
  • Perda de talento quando um cargo desaparece
  • Rigidez estrutural que mata inovação

O Que “Você Não É Seu Cargo” Significa Na Prática

Uma pessoa é um ecossistema de capacidades, histórias, sonhos e potencial. Um cargo é um recipiente temporário para canalizar parte desse potencial para a organização.

O cargo muda. A pessoa não.

Quando você separa os dois, acontecem coisas interessantes:

  1. Transições sem trauma: se o sócio entende que ele não é “gestor de pessoas”, mas pode ser enquanto isso for estratégico, a mudança não queima o ego dele.
  1. Reaproveitamento de talento: aquele especialista em contratos que não precisa mais fazer contratos? Ele pode ensinar, arquitetar processos, mentorar — ainda usando 80% do que sabe.
  1. Organização elástica: em vez de presas pessoas em papéis, você tem pessoas fluindo por papéis conforme a necessidade evolui.
  1. Autonomia real: quando você sabe que não é definido pelo seu cargo, você negocia, propõe, muda de rumo sem risco existencial.

A Verdade Incômoda Sobre Cultura Jurídica

A profissão de advogado reforça essa confusão todos os dias. Passamos anos aprendendo a ser advogados, e depois 15 anos reforçando: “você é seu know-how jurídico”. Quando finalmente assumimos gestão, transferimos a identidade: agora você é sócio.

Resultado: quando a função muda, a pessoa inteira entra em crise.

Cultura de verdade inverte isso. Diz:

  • “Você é uma pessoa com múltiplos talentos”
  • “Esse cargo é um dos muitos que você pode ocupar”
  • “Sua evolução não é prisioneira de uma função”

Para Começar Essa Semana

1. Mapeie seus papéis (não cargos) Quais são os papéis que você realmente ocupa? Mentor? Estrategista? Especialista? Gestor? Empreendedor?

2. Converse com seu time sobre isso Pergunte: “Qual é o role que você acha que está preso para você agora?”

3. Redesenhe um papel (não uma pessoa) Se alguém não está rendendo, antes de trocar a pessoa, redesenha o papel. Talvez não combine com os talentos dela.

Escrito por: Paulo Victor Moreira. Advogado, gestor de Recursos Humanos, consultor em gestão estratégica de escritório de advocacia e palestrante.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *